sexta-feira, dezembro 02, 2016

A mente biológica

Os processos do pensamento dependem do funcionamento cerebral, ou seja, possuem uma origem orgânica ou biológica. A mente reflete, afinal, um conjunto de funções do cérebro. Por conseguinte, qualquer alteração mental será orgânica. Infere-se que os processos mentais se encontram dependentes do funcionamento das sinapses neuronais. Estas têm três estados ontogénicos. Numa primeira fase ocorrem no ser em desenvolvimento; de seguida ocorre uma validação destas sinapses e a modelação de novas. Por fim, e ao longo da vida, haverá uma regulação da eficácia das sinapses. Se numa primeira fase se "construírem" sinapses "erradas", será difícil "desconstruí-las" na idade adulta...

Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sexta-feira, novembro 04, 2016

Genes e livre arbítrio - 2

É um facto assente, hoje em dia, que o determinismo genético não existe, porque os genes apenas influenciam, não originam obrigatoriamente apetites ou aptidões. Alguns autores tentaram encontrar fundamentos de moralidade na evolução biológica, considerando que se esta é um processo natural cujos objectivos são desejáveis, ela será também moralmente aceitável.
A propensão genética para uma dada característica não a torna inevitável, nem tão pouco moralmente aceitável.
Receia-se que o conhecimento do risco genético para uma determinada patologia, na ausência de prevenção ou cura, leve ao afundamento psíquico do paciente ou à sua discriminação. De forma a precaver estas ou outras situações, numerosos países assinaram o Acto de Privacidade Genética no qual ficou bem expresso que o ADN de um indivíduo é sua propriedade privada.

Adpatado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sábado, outubro 29, 2016

Genes, livre arbítrio e homossexualidade

Existem 3 genes no cromossoma Y que se denominam antigénios de histocompatibilidade (ou H-Y), sendo um deles codificador da hormona antimülleriana, a qual tem um efeito masculinizante. Mais tarde, outra hormona, a testosterona completará o processo. A homossexualidade por antagonismo sexual seria então o resultado de qualquer impedimento de masculinização do cérebro, apesar de ela já ter ocorrido nos órgãos genitais. Essa falta de masculinização cerebral, tornaria as suas mentes "femininas" encarceradas em corpos masculinos. Estudos recentes têm vindo a apoiar esta teoria.

Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

quinta-feira, outubro 27, 2016

Genes e livre arbítrio - 1

A descoberta de certos genes (DRD4, por exemplo), provam que certos traços da personalidade, tal como as emoções, estão à mercê da influência de genes moduladores da função cerebral.
A alteração de outro gene da região q11 do cromossoma 22 - codificador da enzima proteica catecol - O - metiltransferase -, destrói o excesso de neurotransmissores dopamina e noradrenalina no cérebro. Tal facto parece estar relacionado com a doença obsessivo-compulsiva, que faz o doente repetir compulsivamente certos comportamentos, por falta de controlo das emoções.
MAS...o facto de a espécie humana possuir a capacidade de antecipar as consequências dos seus atos, conseguir efetuar juízos de valor e escolher vias alternativas, dá-lhe a possibilidade de se comportar eticamente. Porém, os códigos morais estabelecidos e seguidos pelo Homem são o resultado da sua evolução cultural, que, em parte, são consequência da evolução biológica...

Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sábado, outubro 22, 2016

Genes e livre arbítrio

Na perspetiva da genética evolucionista, os genes são os responsáveis máximos pela natureza humana e eles próprios foram moldados por forças da natureza que são completamente amorais. O interesse do Homem por padrões éticos e convicções morais só existe, para os evolucionistas, porque houve uma perpetuação de certos genes ao longo do tempo.
Este processo evolutivo opõe-se naturalmente a qualquer livre arbítrio, pois será ele que vai direcionar, quer o pensamento, quer a ação da espécie humana.
É admissível que uma pessoa possa escolher entre alternativas que se lhe afigurem. No entanto, a ética é no fim de contas o resultado da capacidade intelectual humana, que por sua vez surge com a evolução biológica. O arbítrio não será assim tão livre como se poderia supor à primeira vista.
Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sexta-feira, setembro 30, 2016

Como devo medir a minha vida?

Há milhares de textos sobre autoajuda. Nenhum é como o do professor de Harvard, Christensen - um dos raros livros que Steve Jobs recomendava. Trata-se do "How Will You Measure Your Life"? Um dos best-sellers mais vendidos de sempre - uma leitura obrigatória (para quem exerce cargos de gestão e não só). Do melhor que li nos últimos tempos.
                                                                                               Livro online: Aqui
 Alguns apontamentos do autor:
 
Quando dou conselhos, em vez de dizer o que pensar, ensino como pensar. Quando me perguntam o que acho que devem fazer, raramente respondo diretamente...discorro sobre o tema e a partir de certo ponto as pessoas dizem: "pronto, já percebi". Nas aulas debruçamo-nos sobre as empresas a partir das lentes de cada uma das teorias estudadas. No último dia de aulas, peço-lhes para virar essas lentes teóricas sobre si próprios, de forma a encontrarem respostas a três perguntas:

1) Como posso ter a certeza que serei feliz na minha carreira?

2) Como posso ter a certeza que as minhas relações serão uma fonte duradoura de felicidade?

3) Como posso ter a certeza que não serei preso?
 
Em relação à primeira pergunta, e segundo Frederick Herzberg, o principal motivador na vida não é o dinheiro; é a oportunidade de aprender, crescer com as responsabilidades, contribuir para os outros e ser reconhecido pelas concretizações. A forma como corre o dia do ponto de vista profissional, interfere com a forma como interagimos com a família, ao chegar a casa. Se o dia corre mal, isto afeta-nos a autoestima e perturba a maneira como lidamos com a família. A minha conclusão: a gestão é a mais nobre das profissões se for bem exercida. Nenhuma outra oferece tantas oportunidades de ajudar os outros a aprender e crescer, assumir responsabilidades e ser reconhecido pelas conquistas. Os estudantes de MBA pensam que uma carreira nos negócios significa vender, comprar e investir - isso é lamentável! Fazer begócios não produz as recompensas que resultam de desenvolver pessoas. Quero que os estudantes saiam da minha aula a saber isso.


Criar uma estratégia para a sua vida - Afete corretamente os seus recursos.
 
Em relação à segunda pergunta, é importante gerir os recursos da empresa de uma forma magistral, pois este facto tem implicações na vida pessoal dos trabalhadores. As empresas pensam a curto prazo de forma a obter retornos de uma forma rápida. Deviam, antes, investir em iniciativas a longo prazo. Ao longo dos anos assisti ao desenrolar do destino dos meus colegas de turma de Harvard em 1979; vi um número cada vez maior a aparecer em reuniões infeliz, divorciado e afastado dos filhos... Nenhum deles teria, naturalmente, planeado isso... Qual a razão? Não se mantiveram focados nas prioridades da sua vida. É surpreendente que parte significativa dos 900 estudantes que a HBS escolhe todos os anos (de milhares de candidatos) entre os melhores do mundo tenha dado pouca atenção às prioridades da sua vida. Eu digo aos estudantes que a HBS poderá ser uma das suas últimas oportunidades para refletirem sobre isso. Se pensam que o poderão fazer mais tarde, estão doidos, pois a vida ficará cada vez mais exigente. Para mim, ter um objetivo claro na vida foi essencial. Mas foi algo em que tive de pensar muito antes de o compreender. Quando fui bolseiro em Rhodes (em parceria com Oxford), estava num programa muito exigente. Decidi passar uma hora todas as noites a ler, pensar e refletir sobre outros aspetos fora do âmbito do meu estudo. Por cada hora que empregava a fazer isto não estava a estudar Econometria Aplicada. Apesar da "perda" de tempo, mantive o plano - e acabei por perceber o objetivo da minha vida. Aplico as ferramentas da Econometria algumas vezes por ano, mas aplico os restantes conhecimentos todos os dias.
Digo aos meus alunos que tentem perceber o seu objetivo de vida. Se não perceberem, apenas navegarão à deriva e serão fustigados nos mares turbulentos da vida. A profissão não é mais do que uma ferramenta para alcançar o seu objetivo. Sem um objetivo, a vida pode tornar-se vazia.
Quando penso nos meus antigos colegas de turma que afetaram erradamente os seus recursos (tempo, energia, talento...), não consigo deixar de acreditar que isso se deve ao facto de terem um perspetiva a curto prazo...enviar um produto, terminar um projeto, acabar uma apresentação, fechar uma venda, dar uma aula, publicar um estudo...ser pago e promovido...
Por outro lado, investir tempo e energia na relação com o companheiro e filhos não oferece o mesmo sentido imediato de sucesso. Os miúdos portam-se mal todos os dias...só passados vinte e poucos anos poderá dizer "criei uma boa pessoa". Se olhar para as vidas pessoais através desta lente perceberá que as pessoas afetam cada vez menos recursos às coisas que em tempos disseram ser as mais importantes...estão no caminho para o desastre, na vida e nos negócios!


Crie uma cultura
 
Ser um gestor visionário não chega. É necessário saber usar as ferramentas da cooperação - persuadir os funcionários a trabalhar na direção pretendida. Numa empresa temos, a este nível, duas dimensões:
 
a) medida em que os membros da organização concordam sobre o que querem da sua participação na empresa;
 
b) medida em que concordam sobre que ações produzirão os resultados desejados.


Quando existe pouco acordo entre estes dois eixos, tem de se usar "ferramentas de poder" - coação, ameaças, castigos... - para assegurar a cooperação. Normalmente as equipas novas deparam-se com este problema; por esse motivo, no início têm de ser muito assertivas. Com o passar do tempo os dois eixos tendem a convergir e o consenso começa a formar-se. Edgar Schein do MIT descreveu este processo como o mecanismo através do qual uma cultura é construída - as pessoas nem sequer pensam se a maneira de fazer as coisas produz sucesso. Adotam prioridades e seguem procedimentos sem haver necessidade de ordens ou decisões explícitas - significa que criaram uma cultura. É ela que dita de que forma os elementos do grupo resolvem problemas recorrentes e, muito importante, define a prioridade dada a cada problema.
 
Os meus alunos veem rapidamente que podem usar estas ferramentas de cooperação na educação dos filhos...mas chega uma altura, na adolescência, em que estas ferramentas já não funcionam. Nessa altura os pais desejariam ter começado a trabalhar com os filhos muito mais cedo para criar uma cultura em casa em que as crianças instintivamente se comportem com respeito, obedeçam aos pais e escolham as coisas certas a fazer. As famílias têm culturas, tal como as empresas. Se quer filhos com autoestima e sucesso na resolução de problemas, não espere por magias; tem de os envolver na cultura da família - e quanto mais cedo melhor. Eles desenvolvem autoestima fazendo coisas dificeis e aprendendo o que funciona.
 
Evitar o erro...e a prisão!
 
A última questão parece irrelevante, mas não é. Duas das 32 pessoas da minha turma de bolseiros de Rhodes cumpriram pena de prisão. E Jeff Skilling da Enron foi meu colega de turma na Harvard Business School (HBS). Eram bom tipos, mas algo na sua vida os pôs na direção errada. Muitas vezes utilizamos a doutrina dos custos marginais, quando escolhemos entre o certo e o errado. A justificação para a desonestidade está na ecomomia do custo marginal do "só desta vez". Se for desonesto uma vez, terá maiores probabilidades de voltar a sê-lo.
 
A importância da humildade
 
É crucial transportar o sentido de humildade pelo mundo. Quando chegar a um curso de mestrado ou de doutoramento quase toda a aprendizagem veio de pessoas mais inteligentes e com mais experiência: pais, professores, chefes... mas depois de ter concluído um destes graus, as pessoas com quem irá interagir diariamente, não serão, provavelmente, mais inteligentes. Se a sua atitude for a de que só as pessoas mais inteligentes têm algo a ensinar-lhe, as oportunidades de aprendizagem serão muito limitadas. Pelo contrário, se mantiver uma atitude humilde e pretender aprender algo com todas a pessoas, as oportunidades de aprendizagem serão ilimitadas. Quando vemos pessoas a agir de forma abusiva, arrogante ou humilhante para com os outros, o seu comportamento revela sintomas de falta de autoestima - precisam de por alguém em baixo para se sentirem bem consigo.

terça-feira, setembro 20, 2016

Igualdade vs Igualitarismo

Um professor de economia da universidade Texas Tech referiu que nunca tinha reprovado nenhum aluno mas tinha, uma vez, reprovado uma turma inteira. Esta turma em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e ”justo”. O professor então disse, “Ok, vamos fazer uma experiência socialista nesta classe. Em vez de dinheiro, utilizaremos as notas dos testes.” Todas as notas serão concedidas com base na média da turma, e, portanto serão “justas.” Isto quiz dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém reprovaria. Isto também quiz dizer, claro, que ninguém receberia um A…
Depois do primeiro teste todos receberam B. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado. Quando o segundo teste foi aplicado, os preguiçosos estudaram ainda menos – eles esperavam tirar boas notas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do comboio da alegria das notas. Portanto, agindo contra as suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como resultado, a segunda média dos testes foi D. Ninguém gostou. Depois do terceiro teste, a média geral foi um F. As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, procurando culpados passaram a fazer parte da atmosfera das aulas. A busca por ‘justiça’ dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações. No final das contas, ninguém queria estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos reprovaram… Para sua total surpresa. O professor explicou que a experiência socialista tinha falhado porque ela foi baseada no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foram o seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual a experiência tinha começado.
 
“Quando a recompensa é grande”, referiu o professor, “o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável.”


(isto não se passou de facto nesta universidade - é de autoria desconhecida - mas entende-se o alcance da coisa...)

quarta-feira, agosto 31, 2016

Se não estudas, estás tramado...



Diagnóstico, de um ex-ministro da educação, dos problemas da educação em portugal e as propostas pragmáticas para os resolver.
 
«Uma das lacunas mais facilmente detetáveis na sociedade portuguesa é a da cultura científica. É evidente a dificuldade de muitos para analisar, interpretar, raciocinar e descrever qualquer acontecimento , por mais simples que seja.[...] Só com muito trabalho, muita dedicação e muito esforço será possível enfrentar e ultrapassar as questões tão graves que a educação encara e vai continuar a encarar, uma vez que a educação não é um projecto delimitado no tempo, mas antes um processo intemporal em que todos participamos como protagonistas, seja como pais, como estudantes, como professores ou como educadores. [...] Não posso deixar de expressar o meu sentimento de esperança em relação ao futuro nas áreas da educação, da formação e da produção do conhecimento.»

Eduardo Marçal Grilo

sexta-feira, agosto 05, 2016

As 3 Paixões

"Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade. Tais paixões, como grandes vendavais, impeliram-me para aqui e acolá, em curso instável, por sobre profundo oceano de angústia, chegando às raias do desespero.
Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase - um êxtase tão grande que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Ambicionava-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão - essa solidão terrível através da qual a nossa tremule percepção observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e exânime. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que - afinal - encontrei.
Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber porque cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disto, mas não muito, eu o consegui.
Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a piedade sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos a constituir um fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimentos, convertem numa irrisão o que deveria ser a vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.
Eis o que tem sido a minha vida. Tenho-a considerado digna de ser vivida e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se me fosse dada tal oportunidade."

Prólogo da autobiografia de Bertrand Russell (1872-1970)

quarta-feira, agosto 03, 2016

Sexo, felicidade e moralidade

Para Fernando Savater quando as pessoas falam de "imoralidade", na maior parte das vezes referem-se a algo que tem a ver com sexo. Acreditam mesmo que a moral se dedica a ajuizar o que as pessoas fazem com as suas partes sexuais. O disparate não podia ser maior. No sexo, em si, nada há de imoral...claro que podemos comportar-nos imoralmente com o sexo, como em tantas outras coisas na vida. Aquilo que dá prazer a dois não tem nada de mal. O que está mal é haver quem pense que o prazer tem alguma coisa de mal. Aquele que se envergonha da fruição do seu corpo é tão estúpido como o que se envergonha de ter aprendido a tabuada da multiplicação...
É paradoxal que sejam os que vêem algo de mau no sexo que dizem que ânimos excessivos "animalizam" o homem. A verdade é que são precisamente os animais que usam o sexo para procriar! Nos homens, para além da procriação, o sexo produz outros efeitos. Quanto mais se separa o sexo da procriação, menos animal e mais humano ele se torna. 
Então de onde vem a "imoralidade"? Bem, um dos mais velhos temores sociais do homem é o medo do prazer. Porque é que o prazer assusta? Na verdade, uma pessoa nunca se sente tão contente nem tão de acordo com a vida como quando tem prazer. Mas a existência humana foi em épocas remotas um jogo perigoso. O prazer distrai-nos mais do que o devido e isso pode ser-nos fatal. Daí os prazeres serem rodeados de tabus e restrições. 
Os "puritanos" consideram-se as pessoas mais morais do mundo! Mas o puritanismo é a atitude mais contrária à ética que se pode imaginar...O velho mestre francês Michel de Montaigne recomendava : " Temos de nos agarrar com unhas e dentes ao uso dos prazeres da vida, que os anos nos vão arrancando das mãos uns atrás dos outros". Mas cuidado, não devemos ter obsessão em encaixar à força no instante em que vivemos todos os prazeres. Devemos, antes, procurar em tudo o seu aspecto agradável aprendendo a tirar prazer daquilo que nos rodeia. Montaigne também clarifica que não devemos deixar que nenhum dos prazeres apague a possibilidade de todos os outros, caso contrário escraviza-nos! A diferença entre "uso" e "abuso" é precisamente essa: quando usas um prazer, enriqueces a tua vida que passa a agradar-te cada vez mais; sinal que estás a abusar é quando notas que o prazer te vai empobrecendo a vida e roubando tempo para outros prazeres.

sexta-feira, julho 08, 2016

da Vida

Segundo Pascal Picq para que a humanidade possa continuar, é preciso que ela aceite a mortalidade; uma apoptose, segundo uma expressão inventada pelos Gregos para descrever a queda das folhas no Outono antes que brotem outras folhas. Não é certamente uma posição intelectual e filosófica fácil. Não acreditando na salvação, nem na predestinação e muito menos numa qualquer finalidade do cosmos, a grande ideia que mobiliza o Homem é a VIDA. Ensinar a evolução e as nossas relações com a vida seduz-me neste projecto de um verdadeiro humanismo universal, pois os Homens não têm nada de vergonhoso, nem nada de que se devam envergonhar (na sua essência...). A evolução caminhou, por mero acaso, até nós; aproveitemos a oportunidade para rentabilizar a vida como um dom único e irrepetível!

A vida é “Física”, até mais do que “Química”. Daí ser necessário saber descer da Biologia até à Química e desta até à Física para a compreendermos... MAS com cuidado, para não cairmos no logro para que nos alertou o Húngaro e prémio nobel da Medicina Albert Szent-Gyogyi:

“Com curiosidade em conhecer o segredo da vida, comecei as minhas pesquisas na histologia. Insatisfeito com as informações que a morfologia celular me dava da vida, virei-me para a fisiologia. Considerando a fisiologia demasiado complexa, dediquei-me à farmacologia. Encontrando ainda a situação demasiado complicada, virei-me para a bacteriologia. Mas a bactéria é mesmo muito complexa, por isso, desci ao nível molecular, estudando química e química-física. Depois de muitos anos de trabalho, cheguei à conclusão de que para compreendermos a vida temos de descer ao nível electrónico e ao mundo das mecânicas. Mas os electrões são apenas electrões e não têm vida; É evidente que no percurso perdemos a vida; fugiu-nos por entre os dedos.

sábado, junho 11, 2016

Meio Socioeconómico e Sucesso Educativo

Pesquisas conduzidas durante a década de 60 do século passado, como a de Coleman (1966) ou ainda dos sociólogos franceses Bourdieu e Passeron, revelaram que os alunos oriundos de meios desfavorecidos corriam maior risco de enfrentar dificuldades ao longo do seu percurso escolar. Estudos posteriores confirmaram a existência de uma relação entre o desempenho escolar dos alunos e a sua proveniência socioeconómica. 


Como resposta a escola tentou implementar medidas que garantissem mais justiça em matéria de educação. Crahay (2000) identifica dois princípios através dos quais evoluiram os sistemas educacionais:

1 - igualdade de oportunidades
2 - igualdade de tratamento

Quanto à igualdade de oportunidades a escola guia-se por um zelo de justiça, oferecendo igualdade de oportunidades a todos os alunos. Assim, a origem social, o sexo, a nacionalidade, a origem étnica e o ambiente socioeconómico do indivíduo não devem, pelo menos em princípio, constituir obstáculos à sua escolarização. Significa isto que cada aluno pode receber a educação que ele merece, de acordo com as suas capacidades. Por conseguinte, mesmo que venham de bairros desfavorecidos, os alunos que possuam as capacidades necessárias podem entrar nas melhores escolas e nas melhores áreas. No entanto este princípio não conseguiu tornar a escola mais justa, contribuindo, ao invés, para acentuar as desigualdades sociais. Foi por isso que muitos sistemas de ensino optaram mais tarde pelo princípio da igualdade de tratamento.
Este pressupõe que todos os alunos devem receber um ensino com a mesma qualidade, numa escola única, sem diferenciação de percursos. Oferece-se, então, uma formação equivalente para todos, independentemente das diferenças individuais. Todavia, a despeito da sua nobreza moral, este princípio contribuiu, apesar de tudo, para reproduzir e acentuar a estratificação social. Ao ignorar as desigualdades presentes no ponto de partida de cada aluno, o meio escolar só conseguiu, em definitivo, legitimar as capacidades desiguais construídas pelo meio social de cada um.
Se a escola pretende ser justa, equitativa e eficaz para todos os alunos que a frequentam, ele deve instaurar um outro princípio - o da igualdade de conhecimentos. Para tal o ensino deveria ser organizado de acordo com a pedagogia do domínio (Bloom, 1984). Só assim será possível reduzir as diferenças do ponto de partida de cada um e garantir um bom desempenho de todos. Esta pedagogia baseia-se principalmente no diagnóstico precoce das dificuldades, objetivos de aprendizagem específicos, avaliações formativas frequentes e feedbacks corretivos em tempo útil...ora isto implica uma profunda modificação nas práticas docentes habituais. É neste contexto que o ensino explícito pode fazer toda a diferença com os alunos que apresentem mais dificuldades de aprendizagem.

Adpatado de "Ensino explícito e desempenho dos alunos, Clermont Gauthier, Editora Vozes

sexta-feira, maio 27, 2016

Aristóteles e a verdade

Não foi há muito tempo que Karl Popper nos lembrou a transitoriedade do nosso conhecimento e a falta de fundamentação para aquilo que consideramos certezas, constantemente sobre a ameaça de serem ultrapassadas. Uma das grandes marcas do conhecimento nos nossos dias consiste na consciência da nossa ignorância.O cérebro é um excelente sistema de processamento de informação, mas não há nenhuma explicação para como e porquê nós termos experiências subjetivas, sentir emocional, ou uma "vida interior". Como alguém referiu "não sou jovem bastante para saber tudo", após uma adolescência e primeira idade adulta em que fui platónico vejo-me agora aristotélico, indutivo, receoso das grandes visões, de sonhar que possuo chaves para os grandes problemas do universo.

2400 anos depois do seu nascimento (apesar da Escolástica e do Magister Dixit...), Aristóteles sempre atual..

domingo, maio 15, 2016

do Embuste

As pessoas que compram quadros preocupam-se com a sua proveniência, "saltando" de dono em dono, até ao artista original...Quando não se consegue acompanhar essa viagem, surgem os sinais de aviso de falsificação. Embustes surgem em todas as áreas.
Um dos melhores exemplos é a "Doação de Constantino". Constantino - o Grande, o imperador  que fez do cristianismo a religião oficial e morreu no ano de 337. No séc. IX surgiram de súbito em escritos cristãos referências a uma Doação de Constantino, na qual o imperador deixa ao Papa Silvestre I, seu contemporâneo, todo o Império Romano do Ocidente, incluindo Roma. Era a dádiva do Imperador por o Papa o ter curado da lepra. Durante toda a Idade Média a Doação de Constantino foi considerada genuína, e os papas usavam-na para justificar a sua pretensão e soberania sobre toda a Itália Central.
Lorenzo de Valla defendia que a Doação era um embuste...foi declarado herético e só a intervenção do Rei de Nápoles impediu que fosse parar à fogueira. Sem se deixar desencorajar, publicou em 1440 um tratado a demonstrar que a Doação de Constantino era uma falsificação. A linguagem com que fora escrita estava para o latim erudito do séc. IV, como o Cockney para o Inglês do Rei. Hoje pensa-se que esta obra (que tem uma lacuna de cinco séculos) terá sido forjada por alturas da época de Carlos Magno, quando o papado (Papa Adriano I) de debatia com a unificação da Igreja e do Estado.

sexta-feira, abril 22, 2016

Neurociência e Pedagogia


Há correntes e/ou ideias nas Ciências da Educação que não têm fundamento (pelo menos até ao momento) na Neurociencia. De onde terão surgidos esses “mitos”? Não se sabe muito bem. Um dos casos mais conhecidos é o das chamadas inteligências múltiplas. Este modelo não tem razão científica de existir, sendo até duvidoso o seu valor pragmático. O argumento fundamental diz respeito à falta de evidência empírica que sustente a sua formulação. Compreendendo a morfofisiologia neuronal apetece dizer que a repetição mecânica promove a aprendizagem, mas deve evitar-se um salto concetual tão grande. No entanto comprovou-se há muitos anos que se a ligação entre dois neurónios funcionasse muitas vezes, ou seja, de forma repetitiva, essa sinapse ficava mais sensível a esse sinal, fazendo com que a resposta fosse mais rápida – o que poderemos chamar de aprendizagem. Assim não se sabe por que razão nasceu o conceito de que os processos de memorização são contrários aos do entendimento, ou seja, da inteligência. Diz-se que as crianças têm de compreender e, por isso, não devem decorar. Trata-se de mais um mito que convém contrariar: o cérebro necessita de ser estimulado com processos de memorização e com processos de compreensão. Segundo Claude Lévi-Strauss todas as crianças são criadoras, no que se refere às suas possibilidades, mas não à capacidade de realização efetiva dessas possibilidades. Nesse sentido Qualquer processo educativo necessita de disciplina. Como defende Fernando Savater, o conhecimento tem de ser imposto, pelo menos nos primeiros anos de ensino. Não perguntamos aos nossos filhos se quiseram nascer, ou se querem aprender. Impusemos-lhe a humanidade, tal como a concebemos, da mesma maneira que lhe impusemos a vida. Assim, o objetivo explícito do ensino é conseguir indivíduos autenticamente livres. Ser livre é libertar-se da ignorância primeira. A criança não sabe que ignora, quer dizer, não sente a falta de conhecimentos que não tem. Neste contexto, Karl Popper defendeu que há sempre duas fases da aprendizagem. Primeiramente, acumulam-se conhecimentos de forma sobretudo acrítica. Em seguida questiona-se o aprendido. O não reconhecimento de uma "fase dogmática" precedente da "fase crítica" é um dos erros mais graves da pedagogia romântica. Para raciocinar criticamente sobre um assunto é preciso começar por conhecê-lo. Pretendendo formar "estudantes críticos" sem lhes fornecer a devida informação e treino, apenas se formam ignorantes fala-barato. O que a neurociência nos diz em relação ao processo de aprendizagem é que os dois fatores chave são a motivação e a relação pedagógica. Partindo deles serão menos relevantes as estratégias de ensino implementadas.

domingo, abril 17, 2016

Ensino Explícito

O construtivismo que teve por base os trabalhos de (Ausubel e Piaget), Novak, Vygotsky, Kuhn, entre outros, foi a ideologia dominante das últimas quatro décadas. Volto com frequência a “Ensinando Ciência para a Compreensão”, da Plátano Editora, de Joseph D. Novak. O Construtivismo parecia ter a receita para resolver os problemas de aprendizagem dos alunos…pelos visto não! Trabalhos mais recentes, do Canadiano Clermont Gauthier, dizem-nos que a abordagem terá de ser outra, pelo menos no que toca a alunos com dificuldades e de níveis culturais mais baixos. Chamou a esta nova abordagem de “Ensino Explícito”.
Conceitos como “abordagem centrada no aluno”, “pedagogia ativa” ou “desenvolver as competências” são habitualmente traduzidos pelos Organismos Internacionais por meio da ideologia construtivista, estando na base de abordagens pedagógicas difíceis de serem implementadas e que necessitam de condições especiais para a sua aplicação. Por exemplo, abordagens de ensino pela descoberta requerem professores qualificados e experientes. Do mesmo modo, são necessários recursos materiais, número adequado de alunos por turma, nível cultural médio/elevado dos mesmos e condições específicas de trabalho, coisas que as escolas públicas não possuem necessariamente...
Por que o Ensino Explícito funciona em certas condições e o Construtivismo não? Segundo Gauthier o motivo é que quando a Memória de Trabalho fica sobrecarregada, a aprendizagem não pode ocorrer. Lembremo-nos que a memória de curto prazo tem pouca capacidade de reter informações e funciona durante pouco tempo, antes de ficar sobrecarregada. A teoria da carga cognitiva de Sweller diz que a memória de trabalho do aluno sobrecarrega-se com facilidade, por isso é necessário dividir e separar o saber, apresentando-o em partes mais simples, para assegurar que a memória de trabalho possa absorver e transferir esta informação corretamente para a memória de longo prazo, onde elas serão organizadas. Numa exposição oral longa a capacidade de escutar dos alunos torna-se limitada porque a memória de trabalho acaba por ficar sobrecarregada. O que Sweller nos diz é que nos interessa separar o saber em partes mais simples, para dar sequência a esse saber do mais simples ao mais complexo e, dessa maneira, podermos facilitar a aprendizagem dos alunos. O mesmo se passa com o modelo de Ensino por Projetos. Trabalhar por Projetos é, de facto, aliciante mas a verdade é que é para alunos com certa autonomia, sem dificuldades de aprendizagem e de certo nível cultural.

Um tema interessante, apesar da pouca bibliografia disponível em Português. Do que já explorei sobre “Ensino explícito” concluí o seguinte:

Baseia-se em:
1 – Organização eficiente da ação pedagógica
2 - Propósitos claros
3 – Aulas bem estruturadas
4 – Tarefas adaptativas (diferenciação pedagógica)

Passos:
1 – Passar em revista os pré-requisitos;
2 – Relacionar/enquadrar a matéria do dia com as aprendizagens anteriores
3 – Abordar as matérias por pequenas etapas (com exemplos e demonstrações)
4 – Alternar curtas apresentações com colocação de questões
5 – Exercícios de verificação das aprendizagens
6 - Promover exercícios individuais (diferenciação pedagógica)
7 – Enfoque na avaliação formativa/ dar feedback aos alunos com regularidade

sexta-feira, abril 01, 2016

O "Eu"

A nossa mente é aquilo que somos. Hoje os fármacos contra a ansiedade ou a depressão, a timidez ou hiperatividade fazem já parte da nossa cultura. É incrível a persistência da ideia de alma, que desde a sua "descoberta" nunca foi abandonada. Quando alguém toma prozac ou vinho sabe que eles podem alterar a nossa perceção e, portanto, acabam por alterar também o nosso carácter/comportamento. Sabemos também que níveis baixos de serotonina estão associados a estados de depressão. O cérebro é "física e química", mas as consequências desses processos físico-químicos são as ideias. O "eu" é um conceito muito importante no Ocidente e a mera ideia de que possa desaparecer...causa estragos... Quando observamos alguém com alzheimer ou outro tipo de lesão cerebral, pode ver-se realmente como o "eu" dessa pessoa desaparece: vai-se destruindo paulatinamente à medida que o cérebro se vai deteriorando...

Adaptado de A alma está no cérebro, Eduardo Punset

domingo, março 06, 2016

da Eutanásia

É um assunto complexo e sobre o qual não tenho uma opinião totalmente formada…. Os dois lados (a favor e contra) estão intimamente convencidos da superioridade "natural e até divina" dos seus pontos de vista, o que tem dificultado consensos. Três apontamentos:

a. Parece-me consensual que o direito à eutanásia é diferente do dever de eutanásia, isto é, não terá de se sujeitar a ela quem não o pretender.

b. Há mais dúvidas quanto a ser uma decisão “particular e íntima”.

c. Também há quem defenda que essa liberdade deve ser concedida pelos deputados da Assembleia e não por referendo.

Se estivermos a falar de um direito individual, penso que ele deve ser consagrado, reconhecendo-se assim uma falha na Lei. Não devem discutir-se e muito menos "referendar-se" direitos individuais inalienáveis. Aliás, os direitos fundamentais não existem por estarem escritos na lei – nós não vivemos porque a Constituição nos outorga esse direito, mas simplesmente porque somos seres humanos... então vivemos! Mas a eutanásia não se exerce a título individual, envolve terceiros. A única decisão que não envolve terceiros é a do suicídio, sendo portanto a única para a qual se pode reivindicar um direito individual, exclusivo e inalienável…. Num olhar mais atento verificamos, também, que a constituição confere ao referendo uma dignidade jurídica superior a qualquer outro instrumento legislativo. E o resultado de um referendo pode sempre ser sujeito a posterior decisão legislativa da Assembleia da República. O referendo permite medir o pulso aos cidadãos, e entendendo essa pulsação, não se legislar contra ela. 
Mas há quem considere que a comunidade não tem legitimidade para se pronunciar sobre direitos fundamentais. Por exemplo: seria legítimo referendar a reintrodução da pena de morte, ou a possibilidade do retorno da escravatura a Portugal? Se for a Assembleia a conceder tal facto, a eutanásia terá de ser regulada e enquadrada até para evitar abusos por parte de terceiros. A regulamentação poderá ser feita através de comissões parlamentares especializadas (constituídas por técnicos especializados e de diferentes áreas) e deve ir além da despenalização, garantindo os meios técnicos e humanos necessários ao requerente, sem fazer isto depender da vontade do prestador desse serviço. Neste contexto a regulamentação desenrolar-se-á de uma forma isenta e técnica nas comissões parlamentares e não deixada às “voragens emocionais” e confessionais das populações em referendo…

sábado, fevereiro 27, 2016

Foi há 400 anos

que Galileu levou a primeira reprimenda. O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura importante da Igreja Católica, fora incumbido dessa missão impositiva pelo Papa Paulo V. Galileu é recebido na casa de Bellarmino, que o adverte de várias questões essenciais: 1- diz-lhe que a afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase heresia; 2- aponta-lhe que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; 3- proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática.
Depois da advertência de 1616, Galileu conteve-se por algum tempo e procurou cumprir...

Ao olhar através do telescópio, Galileu descobriu que por detrás das estrelas que pareciam fixas numa esfera de cristal existiam muitas outras a perder de vista, o que pôs em causa a localização do empíreo. Tendo Galileu revelado ao seu assistente a inexistência do empíreo, o mesmo jovem levantou a questão: "Onde está então Deus"? A resposta de Galileu: Dentro de nós ou em lado nenhum.
Afirmou, também, que podia provar matematicamente que a Terra gira em torno do Sol, não o contrário. Bellarmine, contrapôs que a realidade física não é explicável pela matemática mas pelas escrituras cristãs. Só que Galileu era um homem intelectualmente sério e corajoso, não receando a controvérsia que as suas ideias poderiam atear - Retirar à Terra o estatuto de centro do Universo seria "profanar" a casa da humanidade! Bem...Apenas pretendia substituir a autoridade da igreja por uma nova, a da Ciência no que às coisas físicas diz respeito. Tal é deveras interessante, já que Galileu era o que se podia considerar um bom cristão.
A teologia, focada no geocentrismo e antropocentrismo, teve e ainda tem de se ajustar às evidências galilaicas e da cosmologia contemporânea. O heliocentrismo provocou um real cataclismo teológico e filosófico. A inquisição limitou, naturalmente, o genial pensador. Galileu foi obrigado a abdicar das suas ideias, mas a verdade (que é como o azeite) acabou por vir ao de cima...Foi "reabilitado" na encíclica do Papa Pio XII, Humani generis, em 1950. Finalmente, o caso Galileu transitou em julgado depois que o Papa João Paulo II mandou rever o processo e admitiu por fim o erro da Igreja...quase quatro séculos depois :)

Obras consultadas:
Educação, Ciência e Religião de Alfredo Dinis (Teólogo)  e João Paiva (Químico)
Uma História da Matemática de Luís M. Aires