domingo, fevereiro 12, 2017

Humanidade(s) I - A origem do Homem

Tribo atual das Ilhas Vanuatu
"Lamento pensar que muitas pessoas não sabem que o Homem descende de uma forma de organização inferior, mas "poucos" terão dúvidas que descendemos de bárbaros. Nunca poderei esquecer a surpresa que senti ao assistir pela primeira vez a uma festa de fuegianos numa região do litoral selvagem e escarpada (atual terra do fogo, na América do Sul), pela reflexão que de súbito me veio à mente: eram assim os nossos antepassados. Estes Homens estavam completamente nus e cobertos de pinturas, com os cabelos compridos, as bocas a escumar e uma expressão selvagem e desconfiada. Por meu lado, preferia descender de um macaquinho, do que de um selvagem que se deleita a torturar os inimigos, oferece aos deuses sacrifícios sangrentos, pratica o infantícidio, trata a sua mulher como escrava e está imbuído das superstições mais grosseiras. Apesar de todas a suas nobres qualidades, o Homem ainda tem impresso na sua consciência física o cunho indelével da sua origem inferior."
 
Adaptado de A descendência do Homem, Charles Darwin
 

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.


José Saramago, "Deste mundo e do outro"



Crónica publicada por Saramago em 14 de março de 1968, no jornal lisboeta “A Capital”. A velha senhora era analfabeta. Trinta anos depois da publicação da carta, o neto dela receberia o Prémio Nobel de Literatura.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Humanidade(s) - A origem do Homem

Seria Deus, por acaso, um criador tão parco em imaginação que só foi capaz de inventar um reduzido número de modelos a partir dos quais se viu obrigado a desenvolver variantes? A teoria da evolução dá uma resposta diferente a este problema: as espécies parecidas descendem de um antepassado comum próximo no tempo, ou seja, são estreitamente aparentadas. Será possível, afinal, que sejamos tão diferentes dos chimpanzés? Na verdade só nos diferenciamos deles 1%, dos nossos 30 000 genes. Mais ainda, estima-se que não serão  mais de 100, quiçá 50, os genes responsáveis pelas diferenças cognitivas entre uns e outros. Esta pequena alteração genética converteu-nos numa espécie com propriedades mentais únicas (às vezes nem tanto, digo eu...). 

 Adaptado de O colar do Neandertal, Juan Luís Arsuaga


A fusão dos cromossomas ancestrais deixaram vestígios 
de telómeros e um centrómero vestigial
Os chimpanzés, ao contrário dos humanos que têm 23 pares, têm 24 pares de cromossomas. A razão, que imediatamente se torna evidente, não consiste em ter desaparecido em nós um par de cromossomas, mas sim em dois dos cromossomas dos primatas se terem fundido. Pensa-se que o cromossoma 2, o segundo maior dos cromossomas humanos, se tenha formado a partir da fusão de dois cromossomas de médias dimensões dos grandes primatas, tal como pode ser visto a partir do padrão de bandas pretas nos respectivos cromossomas. O Papa João Paulo II, na sua mensagem à Academia Pontifícia das Ciências de 22 de Outubro de 1996, argumentou que entre os grandes primatas ancestrais e os seres humanos modernos existia uma «descontinuidade ontológica» - um ponto onde Deus injectou a alma humana numa linhagem animal. Deste modo, a Igreja pode reconciliar-se com a teoria evolutiva. 

...Talvez o salto ontológico tenha ocorrido quando os dois cromossomas dos grandes primatas se fundiram e os genes da alma se encontrem sensivelmente a meio do cromossoma 2... :) 

Presentemente o cromossoma 2 é amplamente aceite como resultado de uma fusão telómero - telómero entre dois cromossomos ancestrais. As evidências disso incluem:
  • A correspondência do cromossoma 2 com dois cromossomas dos símios. O parente mais próximo do homem, o chimpanzé, tem sequências de DNA quase totalmente idênticas ao cromossoma 2 humano porém em dois cromossomos separados. O mesmo se verifica em relação ao gorila e ao orangotango.
  • A presença de um centrómero vestigial. Normalmente um cromossoma possui apenas um centrómero mas no cromossomo 2 encontram-se vestígios de um segundo.
  • A presença de telómeros vestigiais. Normalmente são encontrados apenas nos finais dos cromossomas, mas no cromossoma 2 encontramos sequências de telómeros a meio.  

domingo, janeiro 22, 2017

Eratóstenes - afinal a Terra é redonda!

Aquando da sua diretoria da grande biblioteca de Alexandria (200 a.C), leu num papiro que no posto fronteiriço sul de Siena (perto da 1ª catarata do Nilo), ao meio dia de 21 de Junho, varas verticais não faziam sombra. Ao mesmo tempo podia ver-se o reflexo do Sol na água no fundo de um poço (sinal de que a luz solar incidia totalmente na vertical sobre a Terra).

Teve então a presença de espírito para fazer a experiência seguinte:

Verificar se em Alexandria (no mesmo dia do ano) varas verticais davam sombra... descobriu que sim! Como era possível, pensou Eratóstenes - seria mais um capricho de Zeus! - se a Terra era plana?

Na sua opinião, tal só era possível se a superfície da Terra fosse curva e então a distância entre Siena e Alexandria seria de 7º ao longo da superfície (curva) terrestre.


  • Se as varas se estendessem até ao centro da Terra, intercetar-se-iam num ângulo de 7º, o que é cerca de 1/50 de 360º, a circunferência total da Terra;
  • Eratóstenes sabia que a distância entre Alexandria e Siena era de cerca de cinco mil estádios (800 Km).
  • Logo, multiplicando 800 Km x 50 (nº de vezes para perfazer o círculo) = 40 000 Km; essa devia ser, portanto, a circunferência da Terra. Apenas errou por 76 km!
Os únicos instrumentos que Eratóstenes dispunha eram varas, olhos, inteligência e gosto pela experiência. Com eles calculou o diâmetro da Terra com baixa margem de erro há 2200 anos atrás! Extraordinário...


Não admira que os seus contemporâneos lhe chamassem de "Beta", tal a sua grandeza.
 

domingo, janeiro 15, 2017

Nervo laríngeo - desígnio inteligente ou evolução?



Este nervo resulta da ramificação de um nervo craniano que provém diretamente do cérebro em vez da espinal medula. O nervo craniano, o vago, tem vários ramos, 2 dos quais dirigem-se ao coração e 2 laterais à laringe. Em ambos os lados do pescoço, um dos ramos do nervo laríngeo dirige-se à laringe, seguindo um percurso direto tal como seria escolhido por um projetista. O outro dirige-se à laringe mas realiza um desvio surpreendente. Mergulha no tórax, circunda uma das principais artérias que sai do coração e depois regressa ao pescoço para terminar a viagem. Enquanto resultado de um projeto, este nervo seria um disparate. Do
ponto de vista evolutivo faz todo o sentido, mas para o compreender precisamos de recuar ao tempo em que os nossos antepassados eram peixes. Os embriões humanos com cinco semanas assemelham-se a peixes com brânquias. Num embrião humano com vinte e seis dias vemos que o abastecimento sanguíneo às "brânquias" se assemelha fortemente ao abastecimento sanguíneo às brânquias de um peixe. Estas ramificações procuram os seus órgãos-alvo, as brânquias, pelo caminho mais direto e lógico. Durante a evolução dos mamíferos, contudo, o pescoço cresceu (os peixes não o têm) e as brânquias desapareceram, evoluindo para tiróide, paratiróide e laringe. Estes órgãos herdaram o abastecimento que outrora servia as brânquias. Durante a evolução dos mamíferos os nervos e vasos sanguíneos foram puxados e esticados em direções diversas. No tubarão esse nervo laríngeo não apresenta desvio, já na girafa (que melhor exemplo se poderia arranjar para esta situação?!), este nervo tem um desvio de 4 metros. Na sua jornada descendente, o nervo passa perto da laringe, que é o seu destino final. Todavia continua para baixo, percorrendo todo o pescoço antes de inverter o sentido e fazer o caminho de volta até esta. Isto exemplifica na perfeição como os seres vivos estão longe de terem sido bem projetados e refuta consistentemente a ideia de um projetista inteligente…

Adaptado de O espectáculo da vida, Richard Dawkins





 

domingo, janeiro 08, 2017

Foi há 400 anos

que Galileu levou a primeira reprimenda. O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura importante da Igreja Católica, fora incumbido dessa missão impositiva pelo Papa Paulo V. Galileu é recebido na casa de Bellarmino, que o adverte de várias questões essenciais: 1- diz-lhe que a afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase heresia; 2- aponta-lhe que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; 3- proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática.
Depois da advertência de 1616, Galileu conteve-se por algum tempo e procurou cumprir...
Ao olhar através do telescópio, Galileu descobriu que por detrás das estrelas que pareciam fixas numa esfera de cristal existiam muitas outras a perder de vista, o que pôs em causa a localização do empíreo. Tendo Galileu revelado ao seu assistente a inexistência do empíreo, o mesmo jovem levantou a questão: "Onde está então Deus"? A resposta de Galileu: Dentro de nós ou em lado nenhum.
Afirmou, também, que podia provar matematicamente que a Terra gira em torno do Sol, não o contrário. Bellarmine, contrapôs que a realidade física não é explicável pela matemática mas pelas escrituras cristãs. Só que Galileu era um homem intelectualmente sério e corajoso, não receando a controvérsia que as suas ideias poderiam atear - Retirar à Terra o estatuto de centro do Universo seria "profanar" a casa da humanidade! Bem...Apenas pretendia substituir a autoridade da igreja por uma nova, a da Ciência no que às coisas físicas diz respeito. Tal é deveras interessante, já que Galileu era o que se podia considerar um bom cristão.


A teologia, focada no geocentrismo e antropocentrismo, teve e ainda tem de se ajustar às evidências galilaicas e da cosmologia contemporânea. O heliocentrismo provocou um real cataclismo teológico e filosófico. A inquisição limitou, naturalmente, o genial pensador. Galileu foi obrigado a abdicar das suas ideias, mas a verdade (que é como o azeite) acabou por vir ao de cima...Foi "reabilitado" na encíclica do Papa Pio XII, Humani generis, em 1950. Finalmente, o caso Galileu transitou em julgado depois que o Papa João Paulo II mandou rever o processo e admitiu por fim o erro da Igreja...quase quatro séculos depois :)
Obras consultadas:
Educação, Ciência e Religião de Alfredo Dinis (Teólogo)  e João Paiva (Químico)
Uma História da Matemática de Luís M. Aires

sexta-feira, dezembro 02, 2016

A mente biológica

Os processos do pensamento dependem do funcionamento cerebral, ou seja, possuem uma origem orgânica ou biológica. A mente reflete, afinal, um conjunto de funções do cérebro. Por conseguinte, qualquer alteração mental será orgânica. Infere-se que os processos mentais se encontram dependentes do funcionamento das sinapses neuronais. Estas têm três estados ontogénicos. Numa primeira fase ocorrem no ser em desenvolvimento; de seguida ocorre uma validação destas sinapses e a modelação de novas. Por fim, e ao longo da vida, haverá uma regulação da eficácia das sinapses. Se numa primeira fase se "construírem" sinapses "erradas", será difícil "desconstruí-las" na idade adulta...

Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sexta-feira, novembro 04, 2016

Genes e livre arbítrio - 2

É um facto assente, hoje em dia, que o determinismo genético não existe, porque os genes apenas influenciam, não originam obrigatoriamente apetites ou aptidões. Alguns autores tentaram encontrar fundamentos de moralidade na evolução biológica, considerando que se esta é um processo natural cujos objectivos são desejáveis, ela será também moralmente aceitável.
A propensão genética para uma dada característica não a torna inevitável, nem tão pouco moralmente aceitável.
Receia-se que o conhecimento do risco genético para uma determinada patologia, na ausência de prevenção ou cura, leve ao afundamento psíquico do paciente ou à sua discriminação. De forma a precaver estas ou outras situações, numerosos países assinaram o Acto de Privacidade Genética no qual ficou bem expresso que o ADN de um indivíduo é sua propriedade privada.

Adpatado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sábado, outubro 29, 2016

Genes, livre arbítrio e homossexualidade

Existem 3 genes no cromossoma Y que se denominam antigénios de histocompatibilidade (ou H-Y), sendo um deles codificador da hormona antimülleriana, a qual tem um efeito masculinizante. Mais tarde, outra hormona, a testosterona completará o processo. A homossexualidade por antagonismo sexual seria então o resultado de qualquer impedimento de masculinização do cérebro, apesar de ela já ter ocorrido nos órgãos genitais. Essa falta de masculinização cerebral, tornaria as suas mentes "femininas" encarceradas em corpos masculinos. Estudos recentes têm vindo a apoiar esta teoria.

Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

quinta-feira, outubro 27, 2016

Genes e livre arbítrio - 1

A descoberta de certos genes (DRD4, por exemplo), provam que certos traços da personalidade, tal como as emoções, estão à mercê da influência de genes moduladores da função cerebral.
A alteração de outro gene da região q11 do cromossoma 22 - codificador da enzima proteica catecol - O - metiltransferase -, destrói o excesso de neurotransmissores dopamina e noradrenalina no cérebro. Tal facto parece estar relacionado com a doença obsessivo-compulsiva, que faz o doente repetir compulsivamente certos comportamentos, por falta de controlo das emoções.
MAS...o facto de a espécie humana possuir a capacidade de antecipar as consequências dos seus atos, conseguir efetuar juízos de valor e escolher vias alternativas, dá-lhe a possibilidade de se comportar eticamente. Porém, os códigos morais estabelecidos e seguidos pelo Homem são o resultado da sua evolução cultural, que, em parte, são consequência da evolução biológica...

Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sábado, outubro 22, 2016

Genes e livre arbítrio

Na perspetiva da genética evolucionista, os genes são os responsáveis máximos pela natureza humana e eles próprios foram moldados por forças da natureza que são completamente amorais. O interesse do Homem por padrões éticos e convicções morais só existe, para os evolucionistas, porque houve uma perpetuação de certos genes ao longo do tempo.
Este processo evolutivo opõe-se naturalmente a qualquer livre arbítrio, pois será ele que vai direcionar, quer o pensamento, quer a ação da espécie humana.
É admissível que uma pessoa possa escolher entre alternativas que se lhe afigurem. No entanto, a ética é no fim de contas o resultado da capacidade intelectual humana, que por sua vez surge com a evolução biológica. O arbítrio não será assim tão livre como se poderia supor à primeira vista.
Adaptado de A educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida

sexta-feira, setembro 30, 2016

Como devo medir a minha vida?

Há milhares de textos sobre autoajuda. Nenhum é como o do professor de Harvard, Christensen - um dos raros livros que Steve Jobs recomendava. Trata-se do "How Will You Measure Your Life"? Um dos best-sellers mais vendidos de sempre - uma leitura obrigatória (para quem exerce cargos de gestão e não só). Do melhor que li nos últimos tempos.
                                                                                               Livro online: Aqui
 Alguns apontamentos do autor:
 
Quando dou conselhos, em vez de dizer o que pensar, ensino como pensar. Quando me perguntam o que acho que devem fazer, raramente respondo diretamente...discorro sobre o tema e a partir de certo ponto as pessoas dizem: "pronto, já percebi". Nas aulas debruçamo-nos sobre as empresas a partir das lentes de cada uma das teorias estudadas. No último dia de aulas, peço-lhes para virar essas lentes teóricas sobre si próprios, de forma a encontrarem respostas a três perguntas:

1) Como posso ter a certeza que serei feliz na minha carreira?

2) Como posso ter a certeza que as minhas relações serão uma fonte duradoura de felicidade?

3) Como posso ter a certeza que não serei preso?
 
Em relação à primeira pergunta, e segundo Frederick Herzberg, o principal motivador na vida não é o dinheiro; é a oportunidade de aprender, crescer com as responsabilidades, contribuir para os outros e ser reconhecido pelas concretizações. A forma como corre o dia do ponto de vista profissional, interfere com a forma como interagimos com a família, ao chegar a casa. Se o dia corre mal, isto afeta-nos a autoestima e perturba a maneira como lidamos com a família. A minha conclusão: a gestão é a mais nobre das profissões se for bem exercida. Nenhuma outra oferece tantas oportunidades de ajudar os outros a aprender e crescer, assumir responsabilidades e ser reconhecido pelas conquistas. Os estudantes de MBA pensam que uma carreira nos negócios significa vender, comprar e investir - isso é lamentável! Fazer begócios não produz as recompensas que resultam de desenvolver pessoas. Quero que os estudantes saiam da minha aula a saber isso.


Criar uma estratégia para a sua vida - Afete corretamente os seus recursos.
 
Em relação à segunda pergunta, é importante gerir os recursos da empresa de uma forma magistral, pois este facto tem implicações na vida pessoal dos trabalhadores. As empresas pensam a curto prazo de forma a obter retornos de uma forma rápida. Deviam, antes, investir em iniciativas a longo prazo. Ao longo dos anos assisti ao desenrolar do destino dos meus colegas de turma de Harvard em 1979; vi um número cada vez maior a aparecer em reuniões infeliz, divorciado e afastado dos filhos... Nenhum deles teria, naturalmente, planeado isso... Qual a razão? Não se mantiveram focados nas prioridades da sua vida. É surpreendente que parte significativa dos 900 estudantes que a HBS escolhe todos os anos (de milhares de candidatos) entre os melhores do mundo tenha dado pouca atenção às prioridades da sua vida. Eu digo aos estudantes que a HBS poderá ser uma das suas últimas oportunidades para refletirem sobre isso. Se pensam que o poderão fazer mais tarde, estão doidos, pois a vida ficará cada vez mais exigente. Para mim, ter um objetivo claro na vida foi essencial. Mas foi algo em que tive de pensar muito antes de o compreender. Quando fui bolseiro em Rhodes (em parceria com Oxford), estava num programa muito exigente. Decidi passar uma hora todas as noites a ler, pensar e refletir sobre outros aspetos fora do âmbito do meu estudo. Por cada hora que empregava a fazer isto não estava a estudar Econometria Aplicada. Apesar da "perda" de tempo, mantive o plano - e acabei por perceber o objetivo da minha vida. Aplico as ferramentas da Econometria algumas vezes por ano, mas aplico os restantes conhecimentos todos os dias.
Digo aos meus alunos que tentem perceber o seu objetivo de vida. Se não perceberem, apenas navegarão à deriva e serão fustigados nos mares turbulentos da vida. A profissão não é mais do que uma ferramenta para alcançar o seu objetivo. Sem um objetivo, a vida pode tornar-se vazia.
Quando penso nos meus antigos colegas de turma que afetaram erradamente os seus recursos (tempo, energia, talento...), não consigo deixar de acreditar que isso se deve ao facto de terem um perspetiva a curto prazo...enviar um produto, terminar um projeto, acabar uma apresentação, fechar uma venda, dar uma aula, publicar um estudo...ser pago e promovido...
Por outro lado, investir tempo e energia na relação com o companheiro e filhos não oferece o mesmo sentido imediato de sucesso. Os miúdos portam-se mal todos os dias...só passados vinte e poucos anos poderá dizer "criei uma boa pessoa". Se olhar para as vidas pessoais através desta lente perceberá que as pessoas afetam cada vez menos recursos às coisas que em tempos disseram ser as mais importantes...estão no caminho para o desastre, na vida e nos negócios!


Crie uma cultura
 
Ser um gestor visionário não chega. É necessário saber usar as ferramentas da cooperação - persuadir os funcionários a trabalhar na direção pretendida. Numa empresa temos, a este nível, duas dimensões:
 
a) medida em que os membros da organização concordam sobre o que querem da sua participação na empresa;
 
b) medida em que concordam sobre que ações produzirão os resultados desejados.


Quando existe pouco acordo entre estes dois eixos, tem de se usar "ferramentas de poder" - coação, ameaças, castigos... - para assegurar a cooperação. Normalmente as equipas novas deparam-se com este problema; por esse motivo, no início têm de ser muito assertivas. Com o passar do tempo os dois eixos tendem a convergir e o consenso começa a formar-se. Edgar Schein do MIT descreveu este processo como o mecanismo através do qual uma cultura é construída - as pessoas nem sequer pensam se a maneira de fazer as coisas produz sucesso. Adotam prioridades e seguem procedimentos sem haver necessidade de ordens ou decisões explícitas - significa que criaram uma cultura. É ela que dita de que forma os elementos do grupo resolvem problemas recorrentes e, muito importante, define a prioridade dada a cada problema.
 
Os meus alunos veem rapidamente que podem usar estas ferramentas de cooperação na educação dos filhos...mas chega uma altura, na adolescência, em que estas ferramentas já não funcionam. Nessa altura os pais desejariam ter começado a trabalhar com os filhos muito mais cedo para criar uma cultura em casa em que as crianças instintivamente se comportem com respeito, obedeçam aos pais e escolham as coisas certas a fazer. As famílias têm culturas, tal como as empresas. Se quer filhos com autoestima e sucesso na resolução de problemas, não espere por magias; tem de os envolver na cultura da família - e quanto mais cedo melhor. Eles desenvolvem autoestima fazendo coisas dificeis e aprendendo o que funciona.
 
Evitar o erro...e a prisão!
 
A última questão parece irrelevante, mas não é. Duas das 32 pessoas da minha turma de bolseiros de Rhodes cumpriram pena de prisão. E Jeff Skilling da Enron foi meu colega de turma na Harvard Business School (HBS). Eram bom tipos, mas algo na sua vida os pôs na direção errada. Muitas vezes utilizamos a doutrina dos custos marginais, quando escolhemos entre o certo e o errado. A justificação para a desonestidade está na ecomomia do custo marginal do "só desta vez". Se for desonesto uma vez, terá maiores probabilidades de voltar a sê-lo.
 
A importância da humildade
 
É crucial transportar o sentido de humildade pelo mundo. Quando chegar a um curso de mestrado ou de doutoramento quase toda a aprendizagem veio de pessoas mais inteligentes e com mais experiência: pais, professores, chefes... mas depois de ter concluído um destes graus, as pessoas com quem irá interagir diariamente, não serão, provavelmente, mais inteligentes. Se a sua atitude for a de que só as pessoas mais inteligentes têm algo a ensinar-lhe, as oportunidades de aprendizagem serão muito limitadas. Pelo contrário, se mantiver uma atitude humilde e pretender aprender algo com todas a pessoas, as oportunidades de aprendizagem serão ilimitadas. Quando vemos pessoas a agir de forma abusiva, arrogante ou humilhante para com os outros, o seu comportamento revela sintomas de falta de autoestima - precisam de por alguém em baixo para se sentirem bem consigo.

terça-feira, setembro 20, 2016

Igualdade vs Igualitarismo

Um professor de economia da universidade Texas Tech referiu que nunca tinha reprovado nenhum aluno mas tinha, uma vez, reprovado uma turma inteira. Esta turma em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e ”justo”. O professor então disse, “Ok, vamos fazer uma experiência socialista nesta classe. Em vez de dinheiro, utilizaremos as notas dos testes.” Todas as notas serão concedidas com base na média da turma, e, portanto serão “justas.” Isto quiz dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém reprovaria. Isto também quiz dizer, claro, que ninguém receberia um A…
Depois do primeiro teste todos receberam B. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado. Quando o segundo teste foi aplicado, os preguiçosos estudaram ainda menos – eles esperavam tirar boas notas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do comboio da alegria das notas. Portanto, agindo contra as suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como resultado, a segunda média dos testes foi D. Ninguém gostou. Depois do terceiro teste, a média geral foi um F. As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, procurando culpados passaram a fazer parte da atmosfera das aulas. A busca por ‘justiça’ dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações. No final das contas, ninguém queria estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos reprovaram… Para sua total surpresa. O professor explicou que a experiência socialista tinha falhado porque ela foi baseada no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foram o seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual a experiência tinha começado.
 
“Quando a recompensa é grande”, referiu o professor, “o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável.”


(isto não se passou de facto nesta universidade - é de autoria desconhecida - mas entende-se o alcance da coisa...)

quarta-feira, agosto 31, 2016

Se não estudas, estás tramado...



Diagnóstico, de um ex-ministro da educação, dos problemas da educação em portugal e as propostas pragmáticas para os resolver.
 
«Uma das lacunas mais facilmente detetáveis na sociedade portuguesa é a da cultura científica. É evidente a dificuldade de muitos para analisar, interpretar, raciocinar e descrever qualquer acontecimento , por mais simples que seja.[...] Só com muito trabalho, muita dedicação e muito esforço será possível enfrentar e ultrapassar as questões tão graves que a educação encara e vai continuar a encarar, uma vez que a educação não é um projecto delimitado no tempo, mas antes um processo intemporal em que todos participamos como protagonistas, seja como pais, como estudantes, como professores ou como educadores. [...] Não posso deixar de expressar o meu sentimento de esperança em relação ao futuro nas áreas da educação, da formação e da produção do conhecimento.»

Eduardo Marçal Grilo

sexta-feira, agosto 05, 2016

As 3 Paixões

"Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade. Tais paixões, como grandes vendavais, impeliram-me para aqui e acolá, em curso instável, por sobre profundo oceano de angústia, chegando às raias do desespero.
Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase - um êxtase tão grande que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Ambicionava-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão - essa solidão terrível através da qual a nossa tremule percepção observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e exânime. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que - afinal - encontrei.
Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber porque cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disto, mas não muito, eu o consegui.
Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a piedade sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos a constituir um fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimentos, convertem numa irrisão o que deveria ser a vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.
Eis o que tem sido a minha vida. Tenho-a considerado digna de ser vivida e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se me fosse dada tal oportunidade."

Prólogo da autobiografia de Bertrand Russell (1872-1970)

quarta-feira, agosto 03, 2016

Sexo, felicidade e moralidade

Para Fernando Savater quando as pessoas falam de "imoralidade", na maior parte das vezes referem-se a algo que tem a ver com sexo. Acreditam mesmo que a moral se dedica a ajuizar o que as pessoas fazem com as suas partes sexuais. O disparate não podia ser maior. No sexo, em si, nada há de imoral...claro que podemos comportar-nos imoralmente com o sexo, como em tantas outras coisas na vida. Aquilo que dá prazer a dois não tem nada de mal. O que está mal é haver quem pense que o prazer tem alguma coisa de mal. Aquele que se envergonha da fruição do seu corpo é tão estúpido como o que se envergonha de ter aprendido a tabuada da multiplicação...
É paradoxal que sejam os que vêem algo de mau no sexo que dizem que ânimos excessivos "animalizam" o homem. A verdade é que são precisamente os animais que usam o sexo para procriar! Nos homens, para além da procriação, o sexo produz outros efeitos. Quanto mais se separa o sexo da procriação, menos animal e mais humano ele se torna. 
Então de onde vem a "imoralidade"? Bem, um dos mais velhos temores sociais do homem é o medo do prazer. Porque é que o prazer assusta? Na verdade, uma pessoa nunca se sente tão contente nem tão de acordo com a vida como quando tem prazer. Mas a existência humana foi em épocas remotas um jogo perigoso. O prazer distrai-nos mais do que o devido e isso pode ser-nos fatal. Daí os prazeres serem rodeados de tabus e restrições. 
Os "puritanos" consideram-se as pessoas mais morais do mundo! Mas o puritanismo é a atitude mais contrária à ética que se pode imaginar...O velho mestre francês Michel de Montaigne recomendava : " Temos de nos agarrar com unhas e dentes ao uso dos prazeres da vida, que os anos nos vão arrancando das mãos uns atrás dos outros". Mas cuidado, não devemos ter obsessão em encaixar à força no instante em que vivemos todos os prazeres. Devemos, antes, procurar em tudo o seu aspecto agradável aprendendo a tirar prazer daquilo que nos rodeia. Montaigne também clarifica que não devemos deixar que nenhum dos prazeres apague a possibilidade de todos os outros, caso contrário escraviza-nos! A diferença entre "uso" e "abuso" é precisamente essa: quando usas um prazer, enriqueces a tua vida que passa a agradar-te cada vez mais; sinal que estás a abusar é quando notas que o prazer te vai empobrecendo a vida e roubando tempo para outros prazeres.

sexta-feira, julho 08, 2016

da Vida

Segundo Pascal Picq para que a humanidade possa continuar, é preciso que ela aceite a mortalidade; uma apoptose, segundo uma expressão inventada pelos Gregos para descrever a queda das folhas no Outono antes que brotem outras folhas. Não é certamente uma posição intelectual e filosófica fácil. Não acreditando na salvação, nem na predestinação e muito menos numa qualquer finalidade do cosmos, a grande ideia que mobiliza o Homem é a VIDA. Ensinar a evolução e as nossas relações com a vida seduz-me neste projecto de um verdadeiro humanismo universal, pois os Homens não têm nada de vergonhoso, nem nada de que se devam envergonhar (na sua essência...). A evolução caminhou, por mero acaso, até nós; aproveitemos a oportunidade para rentabilizar a vida como um dom único e irrepetível!

A vida é “Física”, até mais do que “Química”. Daí ser necessário saber descer da Biologia até à Química e desta até à Física para a compreendermos... MAS com cuidado, para não cairmos no logro para que nos alertou o Húngaro e prémio nobel da Medicina Albert Szent-Gyogyi:

“Com curiosidade em conhecer o segredo da vida, comecei as minhas pesquisas na histologia. Insatisfeito com as informações que a morfologia celular me dava da vida, virei-me para a fisiologia. Considerando a fisiologia demasiado complexa, dediquei-me à farmacologia. Encontrando ainda a situação demasiado complicada, virei-me para a bacteriologia. Mas a bactéria é mesmo muito complexa, por isso, desci ao nível molecular, estudando química e química-física. Depois de muitos anos de trabalho, cheguei à conclusão de que para compreendermos a vida temos de descer ao nível electrónico e ao mundo das mecânicas. Mas os electrões são apenas electrões e não têm vida; É evidente que no percurso perdemos a vida; fugiu-nos por entre os dedos.